
Já fazem sete anos que Donald Miller escreveu o livro “Como os pingüins me ajudaram a entender Deus” (Blue Like Jazz). Desde sua publicação, em 2003, a popularidade do livro aumentou monstruosamente, vendendo mais de um milhão de cópias.
Agora se tornou um filme.
Miller uniu forças ao diretor Cristão Steve Taylor e ao co-autor Ben Pearson para criar a versão cinematográfica do livro. Os três criadores completaram o roteiro em maio de 2008 e começariam uma filmagem de seis semanas no campus do Reed College em Portland, Oregon logo em seguida. Com Taylor à frente, o filme independente teve um orçamento modesto – pelos padrões de Hollywood. Taylor, cujo ultimo projeto para o cinema, The Second Chance, estrelado por Michael W. Smith, foi um sucesso para a audiência cristã, esperava liberar o filme no primeiro semestre de 2009. Mas a CT Movies uniu-se a Taylor e Miller durante o final da pré-produção, dias antes da filmagem começar.
Como surgiu essa idéia?
Steve Taylor: Um amigo me deu o livro no Natal de 2004, e então, no início de 2005, Don veio a Nashville para divulgá-lo. Nos conhecemos lá. Eu adorei o livro. Particularmente, a cena do confessionário foi realmente comovente. Eu pensei “Não sei o que mais esse filme terá, mas quero fazer um filme que contenha essa cena”. Eu não achava que você poderia fazer um filme sobre um autor Cristão com seus trinta anos que morava fora de um campus e não era um estudante matriculado. Pensei que precisaria ser sobre alguém com 20 e poucos anos que vivia essa experiência, e Don estava muito a par desde o início. Ele tem muito conhecimento e não tinha a ilusão de que seria uma adaptação fácil. Ele sabia que isso poderia dar algum trabalho.
Donald Miller: Eu já tinha sido questionado por algumas pessoas sobre fazer um filme e não me interessei. Na verdade, só não sabia como você poderia pegar um livro em forma de tópicos e transformá-lo em uma história cíclica, em um filme. Mas Steve me ajudou a entender que poderíamos escrever uma história usando personagens que tinham a sensação do livro. A essência das idéias transmitidas pelo livro poderia ser colocada em forma narrativa, e também passaria a nossa definição de fé. O que me ajudou a dizer, “Não só é realizável, como isso poderia ser o sopro para tornar as personagens reais e colocá-las além da versão fictícia, lidando com as questões expostas pelo livro”.
E então você começou o processo de colaboração apartir de um roteiro. Como isso fluiu?
Taylor: Don viria a Nashville por alguns dias, e então sairíamos para Portland. Nós íamos e vínhamos, tentando unir as idéias; Eu ainda tinha que levar Don a uma aula sobre como fazer um roteiro. Isso era em vão; nós gastávamos muito tempo rindo. Tínhamos uma pauta e começávamos a colocar as idéias e a conversar sobre quais partes do livro deixariam as pessoas desapontadas se não aparecessem no filme. Nós levantamos uma lista pequena, mas podíamos estar completamente enganados sobre isso. O que pensávamos é que quando alguém termina de ler o “Blue like jazz”, evoca-se um certo sentimento, e apenas queríamos transmitir o mesmo sentimento para os que vissem o filme.
Miller: Eu acho que levou mais ou menos um ano do início ao fim do processo. Nos encontrávamos durante uma semana inteira e tínhamos sessões intensas. Acordávamos cedo e começávamos a trabalhar e sempre íamos para a cama bem tarde. Acho que não escrevemos uma página de diálogo se quer durante os primeiros seis meses. Era só “O que vem depois” e “o que acontece depois” e “se nós voltarmos e modificarmos essa cena, conseguiríamos mais drama”. Esse processo foi explosivo. Quando começamos a escrever os diálogos, eram praticamente auto-dedutivos, uma vez que você sabe o que acontecia em cada cena.
E as aulas sobre roteiro, como foram?
Taylor: Essa aula foi dada por Robert Mckee – das personagens de Nicolas Cage, os irmãos, que participaram do filme “Adaptation”. Fui por conta própria às aulas. Acho que Don realmente absorveu as aulas.
Miller: Me apaixonei pelo processo de escrever roteiros. Trabalhávamos em outro filme com outro grupo, e com um terceiro grupo, trabalhávamos focados em séries de televisão. Escreveria menos livros e me dedicaria mais ao cinema, principalmente porque gosto de estar “por trás das cenas” e também, de estar no “stage”. Fazer esse curso foi o passo seguinte, e faço aulas de história desde então. O próximo livro que estou escrevendo, que será lançado em Setembro de 2009, é sobre história. É sobre dois diretores que surgiram na minha vida e disseram “Nós temos que modificar as coisas porque sua vida é muito chata.” Poderiam os mesmos princípios que eles usam para tornar um filme empolgante, tornar minha vida empolgante? O “eu” fictício está melhorando mais e mais e tendo uma experiência mais significativa – e eu quero uma, também. Então esse é um dos elementos de uma história, e a forma que os roteiristas criam seus dramas. Indo a esse seminário do Robert McKee, os próximos 5 a 10 anos da minha vida serão modificados, em se tratando de pensamentos relacionados à história.
Para esse filme, quão desafiador foi criar uma história fictícia surgindo do que era um livro de ensaios?
Miller: A nossa primeira sessão de storyboard, que durou alguns dias, só é descritível como mágica. Idéias muito interessantes não paravam de surgir. Quem se importa com a forma de concepção do filme, nós queríamos descobrir como ele terminaria. E isso continuou em todos os nossos encontros – apenas mais e mais mágica. Quero dizer, houve vezes nas quais paramos e eu precisei sair surpreso com o que acabara de acontecer a determinada personagem. A história realmente é auto construtiva. Eu definitivamente não me sinto muito responsável por isso. Nós estávamos escrevendo na casa de um amigo meu, em Nashville, e só me lembro de ir para fora, até o deck, e pensar “Cara, eu não acredito que isso estava acontecendo ao longo de toda a história e eu só reparei agora.” E de alguma forma, ainda conseguimos colocar isso no filme – é como se nosso subconsciente sempre soubesse, mas foi-nos revelado como seria através de um espectador. Essa foi uma experiência bem marcante.
Taylor: Em um dia típico, nós tínhamos que trabalhar em uma cena e conversar sobre isso, e então Don disse “Tive uma idéia.” Ele foi ao computador e nós o deixamos sozinho por uns 40 minutos. Então ele nos chamou para dar uma olhada no que tinha feito. Ele lia e nós morríamos de rir. Ele é realmente engraçado e bom com diálogos. Então Ben e eu podíamos levar essa parte de volta a LA, a trabalharíamos um pouco mais, afim de transformar no que seria um roteiro atual. Tudo só se formou com o tempo.
Sem dar muitas informações, você poderia dizer qual será a base da história?
Taylor: É sobre um garoto de 20 anos, de Houston, que cresceu dentro da igreja e é confuso, desiludido e o típico aluno universitário. Ele decide fugir do seu meio e ir a essa universidade – Reed College – que ele percebe ser oposto ao lugar onde cresceu e viveu toda sua vida. Não quero dar muitas informações, mas essencialmente, a personagem do Don fictício vive varias das experiências escritas e tratadas por Donald Miller no livro. Mas ao mesmo tempo é muito diferente, pois achamos que seria mais interessante para retratar essas experiências.
Miller: É um filme sobre como sair da zona de conforto, mantendo quem você é como pessoa. A personagem é Cristã e tem muita vergonha disso, mas, no fim, ele é capaz de sair desse conformismo. É um filme real, muito mais sobre o ser humano que sobre Cristianismo. Cristianismo é apenas o que esse ser humano está lidando.
E o real Donald Miller fará alguma aparição no filme?
Taylor: Sim! Existe uma personagem no livro chamada “Trendy Writer”, o conteúdo foi um pouco modificado, mas ele ira representar essa parte. Ele tinha, originalmente, a idéia de colocar Zac Efron para interpretar Donald Miller, mas não farei isso. Ninguém sairá dançando ou qualquer coisa assim, nesse filme.
Ainda tem uma cena de leitura e debate que acontece na mundialmente famosa livraria Powell, no centro de Portland, e eu precisava de Tim Keller para fazer uma aparição nesse filme. Ouvi muitas coisas sobre os sermões dele – nós fomos à New York só para ouvi-lo pregar. Então mencione que estamos à procura de Tim Keller. Provavelmente não conseguiremos, mas um homem pode sonhar, certo?
Como está planejando financiar o filme?
Taylor: Nós apresentamos o projeto para alguns estúdios que se mostraram interessados, mas eu não queria que eles pagassem por isso, porque nós queríamos pelo menos uma co-produção na qual nós conseguíssemos comandar o processo criativo. Fundos de estúdios são tipicamente problemáticos porque costumam vir com vários ‘poréns’. Então nós entramos no processo de levantar orçamento de investidores particulares, para que pudéssemos fazer isso por conta, porque nós sabíamos como o filme precisa ser e, francamente, um estúdio de Hollywood não saberia. Meus parceiros de empreendimento e eu decidimos que fundos privados seriam a melhor rota para assegurar que o filme manteria o verdadeiro espírito do livro e que teria a melhor filmagem para o sucesso comercial.
Tratando-se de distribuição, nós conseguimos um estúdio que concordou em fazer a distribuição, mas nós também temos, agora, três estúdios monitorando o projeto, porque leram o script e se interessaram. Então os deixaremos ver o filme quando este estiver pronto e assim veremos como tudo fluirá.
Você se sente como se estivesse fazendo um filme de apelo mundial, ou um filme que será segmentado apenas pela audiência Cristã?
Miller: Nós queremos que o filme tenha apelo universal, mas honestamente, acho que será mais assistido por Cristãos. Pessoas compraram o livro para dar à não Cristãos e muitas pessoas vieram conhecer a Cristo lendo o livro, acho que o filme é bem similar. É o tipo de filme que eu daria para um amigo que não é Cristão, não para apresentá-lo ao ‘gospel’ ou a Jesus, mas para apresentá-lo a mim. Essa é minha vida, essa é minha luta e é como me sinto. Acho que o filme será o tipo de peça utilizada por Cristãos para ajudá-los a ser entendidos na cultura americana. E para mim, essa é uma ferramenta muito poderosa. Muitas pessoas vem a conhecer Cristo por relacionamentos com cristãos, e essa é uma ferramenta que aumenta e aprofunda esses relacionamentos.
Taylor: Hollywood tem esse sistema de avaliadores que pegam um roteiro e fazem os comentários classificando-os como “passa”, “considerável”, ou algumas vezes “realmente considerável”. Um avaliador (de um grande estúdio) nos deu um “realmente considerável”. O que o fez ver além de uma típica comédia universitária que lida com problemas relacionados à fé – mas isso não impede o filme de ser engraçado e engajado. Os comentários soaram como algo que eu poderia ter escrito sobre o filme.
Fonte: Cristianismo Hoje


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