Em busca da arte perdida

Quando estudei teologia tive um professor que falou uma das maiores besteiras que já ouvi: “No céu não teremos memória, não lembraremos quem éramos nem o que fizemos”. Claro que discordei dele e respondi o seguinte: “Se no céu não lembraremos de mais nada, porque precisaremos saber que estaremos ali pelo sacrifício de Cristo? Se no céu não lembraremos de mais nada, porque seremos julgados por nossas obras? Se no céu não teremos memória, como saberemos que um dia nos convertemos? Não seria injusto (para um Deus justo) sermos julgados por obras que não fizemos - quando deveríamos ter feito - sendo que nesse julgamento celestial nem saberemos o motivo do nosso julgamento?”.

Procurei usar argumentos exclusivamente teológicos por se tratar de um curso de teologia. Mas poderia argumentar com uma questão que sempre penso.

- Não somos nossos corpos e rostos bonitos. Não somos nossos talentos e dons. Não somos nossa conta bancária. Não somos nosso nível cultural. Somos a nossa própria história, e essa história está em nossa memória. Pois somos tudo aquilo que já vivemos.

Pensamos do jeito que pensamos por causa das experiências que já tivemos. Se você é uma pessoa extremamente desconfiada (assim como eu), é porque algum acontecimento da sua vida fez com que você fosse assim. Se você é uma pessoa que se emociona com maior facilidade, é porque algum ambiente da sua vida foi favorável a isso.

Seguindo esse raciocínio, podemos citar diversar questões. Mas vamos parar por aqui.

Na verdade, quis usar isso como pretexto de uma coisa que faz parte da minha história. Também não vou contar meu testemunho, basta dizer que eu era muito perverso e a graça de Jesus me alcançou (mais perverso do que você pode imaginar, mas deixemos de lado).

Minha conversão aconteceu num ambiente missionário. Aliás, meus primeiros anos de discipulado foram “bombados” por missões. Acho que participei de mais conferências, simpósios, cursos e agências missionárias do que a maioria das pessoas.

No início da minha conversão aprendi duas coisas: 1) Jesus morreu para me salvar. 2) Ele me chamou para ser usado por Ele.

A primeira pessoa que orou comigo foi uma missionária que hoje está no Peru. Alguns anos depois, ela me deu aula de espanhol para que eu participasse de um trabalho… adivinhe? Missionário!

Eu e a Jackie nos apaixonamos porque os dois estávam sempre juntos em trabalhos missionários. Ou seja, boa parte da minha vida está nesse contexto.

Não estou dizendo que sou missionário. Longe disso, sou um cristãozinho bem mediocre, só que sou apaixonado por missões. Aprendi pela Bíblia que o cristianismo é missões. Não tem como você separar, veja o que Jesus falou em Atos 1.8: Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra.

O cristianismo foi fundado em um contexto cem por cento missionário. O apóstolo Paulo é um exemplo claro disso, aliás, o Novo Testamento é.

Acho que justamente por isso, me revolto sempre que vejo a igreja se tornando um “fast food de promessas de vitórias e conquistas” onde Deus é o mordomo. Honestamente, não consigo separar o cristianismo da obra missionária.

Dentro de nosso contexto de artistas cristãos posso dizer o seguinte, fico muito feliz quando vejo inúmeros congressos de arte rolando. Acho o maior barato ver tanta gente se interessando por arte circense, teatro, músicas de outras culturas.

Realmente, sinto orgulho por estar fazendo parte desse início de revolução que está acontecendo na igreja brasileira (igreja do Senhor, não a instituição).

Mas algo me preocupa.

O que essa galera vai fazer com tudo isso que está sendo enxertado? Qual é o objetivo final disso tudo?

Esses congressos de arte vão tomar o mesmo rumo dos congressos de adoração, ou seja, vão se tornar um ópio para viciar o próprio povo? Será que é isso que precisamos?

Rasgando o verbo, ainda tem muita vista grossa sendo feita no meio das artes. Duvida?

Tem muito orgulho rolando numa disputa besta de quem é a melhor companhia de dança, o melhor dançarino, o melhor ator, o melhor grupo de teatro, o melhor músico, a melhor banda, a melhor peça, o melhor CD. Tem muita gente fazendo evento, enfiando dinheiro no bolso e não honrando os compromissos com os palestrantes que foram chamados. Tem muito grupo que conseguiu um certo reconhecimento e por isso não se “submete mais a certas situações” que se submetiam antes da sua “pseudo-fama”.  Tem muito homossexualismo escondido por trás de uma “expressão artística” (e muito líder vê isso mas não trata, para não ofender e não ser acusado de preconceituoso). Muita gente metido a famoso que olha os outros com desdém, até mesmo para outros palestrantes (como aconteceu com o meu amigo músico, Jader Finamore). Quer saber? É uma aldeia de índios onde tem muita bunda pra pouca tanga.

Sei que a igreja é formada por imperfeitos, mas não significa que todos precisam ser sem-vergonhas!

Só que vamos para o lado bom. Tem gente que recebeu o talento de Deus e está usando naquilo que é necessário: ganhar almas. Vejo alguns dos meus amigos artistas que tem suas agendas internacionais que não são agendas de espetáculo, mas são trabalhos missionários (não que seja errado ter uma agenda internacional).

Odeio puxar o saco dos outros, mas para alguns grupos aqui preciso dar nome aos bois.

Pastoras Adriana e Luciana, do Rhema. São pastoras mesmo, compromissadas com Deus. Das vezes que encontrei essas mulheres vi pessoas que primeiro pensam em Deus, depois na arte.

Meus amigos do Tribus. Esse caras não foram cumprir agenda na China e na Alemanha, foram ganhar almas. Fazer missões, ver gente aceitar Jesus.

Gustavo “Biruta” Alves. Outro que não foi cumprir uma agenda internacional na África, foi ganhar almas, foi tocar e ser tocado pelas pessoas ali (tanto que quase voltou com um filho adotado).

O pessoal do Jeová Nissi, também com o trabalho na África. Esses caras só cresceram depois que assumiram a “bronca” de ganhar almas em outro continente.

A galera do Ceifa (Jocum/Contagem-MG). Meu amigo Andrezão e sua trupe, apenas passam mais de seis meses em países “super aconchegantes e limpos” como o Nepal, a Índia e Paquistão, para usar a arte como forma de levar o evangelho para as pessoas.

Olha, sei que estou me arriscando por dar nomes aos grupos que considero “artistas missionários”, até porque se esses caras que citei resolverem chutar tudo para o alto e desandar, eu queimo minha língua por ter falado bem deles. Também quero lembrar que estou falando de pessoas que estão dentro do meio das artes, e não de ministérios de louvor.

Infelizmente, para alguns “artistícos”, missões é uma arte perdida. Não sou da opinião que você não pode simplesmente fazer arte livremente, sem compromissos religiosos. Mas sou da opinião que como cristão carregamos a obrigação de compartilhar do nosso maior bem com aqueles que não tem: a salvação através de Jesus.

Artistas e pseudo artistas… vamos olhar para o lugar certo! Missões não é uma arte perdida, ela é bem viva para aqueles que vivem um evangelho verdadeiro.

Batemos tanto o pé para dizer que precisamos lutar pelo espaço da arte na igreja, que nos esquecemos que como igreja do Senhor precisamos expandir o Reino.

Quando chegarmos diante de Jesus você acha que sua felicidade será tão grande que a primeira coisa que vai fazer será dançar na frente dEle? Nunca!

A glória dEle é tão grande para nossa podridão, que só conseguiremos ter tempo de nos ajoelhar e chorar em agradecimento por termos sido resgatados do inferno.

Não pense que temos tempo para brincar de “fazer arte”. Não temos.

Nosso tempo é curto, e enquanto muita gente está mais preocupada em aprender novas coreografias, músicas e peças, tem uma infinidade de pessoas morrendo sem saber que Jesus veio por elas.

Aproveite enquanto existem pessoas que podem ser consideradas exemplo. Se eles espelham a glória de Deus, olhe para eles e imite o compromisso que eles têm (não suas coreografias, interpretações e músicas).

No céu você será julgado por suas obras, sim. E é bom que você tenha algo relevante para apresentar. Aliás, não me lembro de existir um versículo que diga que os “que nada fizeram, pelos menos farão a faxina celestial”.

Acredite, quando chegarmos diante de Deus, nos lembraremos muito bem quem éramos e porque chegamos ali. Afinal, o sacrifício de Jesus é o motivo. Portanto, não perca seu tempo.

Ah, lembrei. Sabe aquele professor que falei no início do texto? Arrumou uma amante, meteu o chifre na mulher e a largou com os filhos pequenos pra cuidar… É, tomara que o “céu” para onde ele vai tenha um deus que esqueça de algumas coisas. (É claro que estou sendo cínico!)

César Ricky – www.tehilim.com.br

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3 comentários

  1. Grace /

    Paz!
    Realmente cada linha descrita acima mostra a realidade que estamos vivendo em nossa cristianismo. Pessoas querendo de aparecer, querendo mostrar aquilo que não são e interpretando através de máscaras diárias as suas mediocres vidinhas “cristãs”.
    É um tempo de avaliarmos cada atitude nossa, em que nosso ministério tem contribuido com o IDE, afinal é para isso que o Pai nos chamou, para irmos, e não apenas ficarmos com nosso traseiro esquentando o banco da igreja, sinceramente não é esse evangelho que quero seguir, e sim o de AÇÃO,e é exatamente isso que tem faltado para a Igreja de Cristo, AGIR e parar de olhar para o seu próprio umbigo. No Brasil temos a liberdade de gritar o nome de Jesus nas ruas, enqto em outros países qquer tipo de manifestação dá cadeia, morte, etc. Então porque não temos feito nada para melhorar e apreoveitar isso em nosso país? Ou então porque não passamos essa liberdade para outros países através das estratégias que Deus nos dá através da arte não é mesmo? Mais não, é mais fácil e mais aconchegando ficarmos aqui na nossa…PATÉTICO!
    Vamos sim viver na prática a palavra e não apenas de teoria, vamos cada um que está com sede influenciar a outros a participarem desse chamado missionário, porque a missão da igreja é fazer missões, em qquer lugar do mundo! Temos que IR, AGIR!

    Deus o abençoe irmão!

  2. adilson /

    Concordo plenamente, pois se não haverá memória, como serei julgado por aquilo que fiz se não sei nem o que fiz. A Palavra nos ensina que seremos julgados por aquílo que fizemos por meio do corpo.
    Eu tenho um pensamento para podermos alinhar nossa vida com o coração de Deus.
    Tem muito líder que me espancaria ao ler isso.
    Deus não esta nem ai para o que nós fazemos.Ele esta de olho no porque fazemos. O ser humano pode muito bem maquiar os profundos desejos de seu coração para outro semelhante ( por algum tempo), mas para Deus não adianta. Ele sabe as intenções do coração do homem. Tem muita gente querendo roubar a glória de Deus ( síndrome de Lúcifer) ou reduzí- la a fagulhas e ilusionismo. Mas a obra de cada um se manifestará á Luz de Deus.
    A verdade é que precisamos viver isso, o IDE de Jesus e não uma “vida cristã” fictícia. E missões não começa na Àfrica, Japão, Inglaterra … Ela pode estar do outo lado da rua, ou até mesmo na nossa casa.Afinal como dito ” CRISTIANISMO É MISSÕES”. Jesus veio fazer missões aqui no meio de nós. O Tabernáculo de Deus no meio dos homens.
    Deus abençoe

  3. Poxa, como essa mensagem falou comigo!
    Já participei de alguns seminários e, da mesma forma, percebi que existem pessoas tão preocupadas em não errar a coreografia que esquecem que são canais de bênçãos e consequentemente não dão lugar para o agir do Espírito Santo. Quantas vezes presenciei pessoas saírem chateadas do altar [ou palco dependendo da situação. =/] por errarem os passos que a tanto tempo têm ensaiado. É de fato frustrante ensaiar tanto tempo e na hora H errar, mas onde está nossa motivação? Para que fomos chamados? A quem pertence nossa arte? Pra que serve? Só para encher os olhos de uma congregação saciada?

    Fico imensamente feliz de saber que o meu Deus tem memória muito mais que fotográfica! Aleluia!

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