A dor dói

No momento em que escrevo esse texto faz exatamente 1 mês e nove dias que passei o que considero uma das provas mais duras e dolorosas que já enfrentei na vida: quase perder minha filha.

Explicando de maneira bem rápida. Minha filhinha mais nova, Esther, teve uma osteomielite no osso da coxa direita causada por uma infecção. Ela teve que passar por uma cirurgia, na qual precisou tomar anestesia geral, com apenas 29 dias de vida. Depois da cirurgia, teve que ficar internada por 22 dias passando por um tratamento intenso de antibióticos via um catéter na veia do seu pescoço. Obviamente que todo período de internação é bastante tenso, pois enquanto não existe uma recuperação definitiva ninguém consegue ficar aliviado. E fora toda essa questão já sofrida com a Estherzinha, eu e minha esposa sofremos muito com dor incompreensível de nossa filha mais velha – Rachel, de apenas 3 aninhos – que não conseguia entender porque a irmãzinha não voltava pra casa e porque a mamãe tinha que ficar no hospital cuidando dela.

O médico responsável pela cirurgia nos disse que se tivéssemos chegado um dia antes, não conseguiriam descobrir a infecção. Se chegássemos um dia depois, ela teria morrido de infecção generalizada. Posso dizer, não é nem um pouco fácil para um pai e uma mãe ouvir esse tipo de coisa, mesmo quando você sabe que Deus te levou ali na hora certa.

Enfim, a dor dói. E só quem passa sabe a intensidade dela.

Se tem uma coisa que é inexplicável é entender porque algo que está indo bem de repente muda de rumo e se torna “desastroso”. Porquê nos momentos em que não precisamos sofrer mais, acabamos sofrendo mais do que esperávamos. E porquê as coisas não seguem apenas um caminho suave ao invés de se tornarem tortuosas.

É claro que na hora da dor olhamos para a vida dos outros e nos perguntamos porque para fulano tudo dá certo. Duvido que não tenha alguém que não sinta que no colo do mundo inteiro está “chovendo Xuxa e só no seu cai um Pelé”! Realmente, entender o porquê precisamos sentir dor, justamente no momento em que mais precisamos que as coisas funcionem, não é uma tarefa tão simples.

O pior momento do sofrimento é quando você descobre que mesmo se você tivesse todo dinheiro do mundo, isso não ajudaria; se você fosse alguém super famoso, isso não seria o suficiente; se você tivesse todo o tipo de recurso humano ao seu lado, ainda assim, seu sofrimento não seria aliviado. É nessa hora que só te resta uma coisa que por muitos ela tem um sentindo tão amplo, mas não necessariamente correto: a fé.

E que fé é essa?

Não é a fé que tenta ser explicada em capas de revistas. Não é a fé ateísta que crê na ciência e no ser humano. Não é a fé no cosmos e no universo. E muito menos a fé em si próprio, pelo fato de você ser uma boa pessoa. Essa fé que é a única coisa que resta no momento de dor intensa é a fé em Deus.

Mas não uma fé coletiva, pregada aos domingos. Nem uma fé televisiva, movida por campanhas, ofertas e copos d’água em cima da TV. É a fé da sua experiência pessoal com Deus. É aquela fé que ainda que tudo desabe, você sabe que pode confiar em Deus. É a fé que te sobra mesmo quando o Senhor não te responde uma palavrinha daquilo que você tem orado. É a fé de que ainda na sua mais intensa luta, Ele te ama e não desistiu de você. Essa fé não é tão fácil de adquirir.

Particularmente, considero que essa fé verdadeira e praticamente sobre-humana, só existe quando você alimenta as verdades bíblicas de quem é Deus. Porque honestamente, se você faz parte dessa igreja que se diz evangélica, mas perdeu a essência do evangelho; onde Cristo não é mais o centro da fé, e sim suas conquistas pessoais; onde ficar rico, famoso, lançar CDs e sair em revistas tornou-se mais importante do que amar e viver para Deus por quem Ele é e não pelo que Ele faz… …desculpe-me, mas você não se segura na primeira rajada de vento que te alcançar.

Insisto sempre em deixar claro o meu inconformismo com a fé evangélica desse início do século XXI. É uma fé tão inconsistente e tão sem base que deixa clara a fraqueza de sua crença. Mas porquê essa fraqueza? Porque a Bíblia se tornou obsoleta? Porque a ciência é tão avançada hoje em dia que desmascarou a verdade sobre Deus? NUNCA!

A Bíblia nunca foi tão verdadeira quanto ela é atualmente. Deus nunca se tornou tão pessoal quanto hoje. E a ciência nunca comprovou tantas coisas bíblicas quanto ela comprova hoje. Mas a falta de relacionamento pessoal e verdadeiro com Deus, a falta de um relacionamento que não busque interesses próprios, mas que seja baseado na gratidão pelo sacrifício de Cristo e os favores de Deus por nós, colaboram para o desastroso declínio da verdadeira fé cristã.

Tristemente, um grande número de jovens que se dizem convertidos entram em suas faculdades hoje e sofrem um processo de destruição de valores. A fé que um dia foi proclamada por eles, torna-se a fé de seus pais. A fé de seus pais, torna-se uma bela crença. Essa bela crença, torna-se mais uma filosofia. Essa filosofia torna-se uma ficção, e por fim, para eles, Deus deixa de existir.

Não estou criticando o estudo, de forma alguma. Eu mesmo tenho formação em comunicação social, sou jornalista e músico profissional. Minha esposa tem graduação, mestrado e doutorado em linguistíca histórica pela USP e é professora de uma faculdade. Minha crítica é quanto a falta de relacionamento e experiência com Deus. Porque somente uma vida real com Deus é que te dará base suficiente para suportar a dor no dia em que ela chegar. E pode acreditar, ela vai chegar.

Jó era um homem justo. Ele servia a Deus. Oferecia sacrifícios a Deus até mesmo pelos pecados que seus filhos tivessem cometido. Então porquê um cara como ele perdeu tudo, viu a morte dos filhos, sofreu de lepra a ponto de coçar as feridas com caco de telha, e ainda teve que ouvir da boca de sua esposa que era melhor que ele amaldiçoasse a Deus e morresse? Ironicamente a Bíblia não responde isso, mas ela dá algumas pistas: Primeiro – ainda na dor e na tristeza, em 19.25, Jó reconhece que seu Redentor vive e se levantará sobre a Terra. Ou seja, mesmo sofrendo ele não deixou de crer. Segundo – Do capítulo 40 adiante vemos o seguinte, quem é capaz de questionar a Deus e vencer?

Não dá!

Porque o justo sofre é uma coisa inexplicável. O mais curioso é que isso é tão misterioso que até mesmo o próprio filho de Deus, sendo a pessoa mais justa e única sem pecado que já existiu, sofreu com humilhações, falsas condenações, foi espancado, cuspido e crucificado para pagar pelo erro que não era dEle. Dor maior do que a de Jesus? Certamente ninguém sofreu.

Tenho um amigo que perdeu um bebê quando ele tinha apenas um mês de vida. Quando esse cara foi questionar a Deus e chorar por sua dor, o Espírito Santo falou em seu coração: “Pode chorar, eu também sei a dor de perder um filho”.

Incrível pensarmos que até o próprio Deus teve que sofrer. Ele escolheu os cravos, a cruz e os pregos em suas mãos para que a dor de uma eternidade longe de mim e de você não fosse maior que o Seu amor por nós. A grande verdade é que o cristianismo autêntico é marcado pela dor. Se te pregarem um evangelho fácil, de uma vida sem dor e sofrimento, corra! E se por acaso o evangelho que você segue é esse “fast food televisivo gospel”… …te aconselho ler a Bíblia e começar a compreender o que é o cristianismo autêntico.

Se você ler Hebreus, principalmente no que diz respeito aos heróis da fé, verá que foram pessoas sofridas, injustiçadas, maltratadas, que nada tem a ver com o DVD ou CD do imbecil do seu ministro de louvor favorito, que vive um pseudo evangelho e engorda sua conta bancária com “ofertas mínimas” de 30 mil reais para “ministrar” o povo. Sobre os verdadeiros heróis da fé, o autor de Hebreus declara que eram homens de quem o mundo não era digno (Hebreus 11.36-40).

Não significa que somente os que passam por sofrimentos intensos são os verdadeiros homens e mulheres de Deus. Mas que certamente os que recusam a dor quando ela chega não sabem nada sobre a verdadeira fé, isso sim, eu posso afirmar que é verdadeiro.

Quando você orar a Deus pedindo experiências reais com Ele, se prepare. Experiências verdadeiras com Deus podem ser mais doloridas e significativas do que você pode imaginar. Mas acredite, são elas que vão moldar o seu caráter, provar a sua fé e fazer de você uma pessoa realmente inabalável em seu amor e gratidão por Jesus.

Minha Estherzinha está em casa. Muito bem, linda e sem sequelas. Vimos o milagre do Senhor na vida dela, mesmo no silêncio de Deus. Os médicos ficaram impressionados com a recuperação rápida que ela teve. A ação de Deus foi tão grande que até mesmo no último raio-X da perninha dela, vimos que o osso que estava doente está completamente reconstruído. Enfim, ela está bem.

Posso dizer, a dor dói e existe. Mas nosso Deus ainda continua fazendo milagres (mesmo no silêncio).

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2 comentários

  1. Meu caro Rick, fico aliviado pelo desfecho feliz dessa história, e imagino sua dor, pois, além de ser pai e não conseguir imaginar como reagiria passando por tamanha provação, vi meus pais e minha irmão sofrendo assim como vocês, por eu tambem ter sofrindo, com quase 4 aninhos, uma osteomielite na perna esquerda, mas no final, deu tudo certo.

    Um abração, cara!

  2. Charles /

    Olá nossa que palavra abençõada , conheci hj o site mas aprendi bastante já
    que Deus abençõe fiquem na Paz , abraços.

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