Síndrome de Alice no país das maravilhas

Honestamente, eu não sei dizer o que é. Pode ser a maturidade, ou os anos pós-conversão. Pode ser os calotes que tomei de muitos desses “santos”, ou a falta de perspectiva que o deserto muitas vezes traz. Mas também pode ser minha personalidade, ou também o meu saco cheio para aguentar certas coisas. Sei lá, deve ser um pouco disso tudo.

Sei que nessa minha jornada pelo universo gospel dos ministérios, artes, música, festivais, igrejas, famosos, “quase-famosos”, “nem-tão-famosos” ou “se-sentem-famosos”, eu me deparo com diversas situações. Mas não quero falar aqui de barbaridade e nem de pecados ocultos de fulano ou siclano. Só queria refletir sobre uma coisa que afeta a todos que sentem ter uma chamada ministerial (ou artística, ou espiritual… sei lá! Dê o nome que você quiser!), que como o próprio apóstolo Paulo disse: “Excelente obra deseja” (I Tim. 3.1).

Ao invés de chamar essa coisinha da qual quero falar de mentira, vamos chamá-la de falta de sinceridade. Mas pode ser falta de honestidade. Também pode ser a “Síndrome de Alice no País das Maravilhas”, para aqueles que vivem num sonho que não é verdadeiro. Sei lá… acho que mentira é melhor.

Só que o lado que quero falar diz respeito a uma parte específica: o sonho de viver do ministério, ou da obra.

Posso dizer que isso é uma coisa que realmente admiro naqueles que conseguem. Sempre que vejo alguém que se destaca no Corpo de Cristo, e esse alguém consegue viver da obra, me dá uma “inveja santa”. Pode até parecer engraçado, mas acho sensacional você poder desenvolver o seu chamado e não precisar se preocupar com o seu emprego secular, com subir de cargo em seu trabalho, com o mal humor do seu chefe, ou até mesmo procurar uma empresa melhor para trabalhar. Sem falar no fato -  que embora sei que possa parecer uma visão um pouco romântica da situação – você está gastando (ou investindo) a sua vida naquilo que existe de mais importante para um cristão: a propagação do evangelho e o crescimento do Reino de Deus.

Por outro lado, também sei que o outro lado da história não é tão romântico. Tem aqueles que vivem da obra e dependem de ofertas. Esses, muitas vezes, passa duras dificuldades. E tem aqueles que contam com o apoio de uma determinada denominação que banca o seu salário. Você deve estar pensando, “Mas e aqueles que cobram cachê?”. Desculpe a honestidade, mas não posso considerar como uma pessoa que escolheu viver da obra de propagar o nome de Jesus, alguém que cobra cachês (ou ofertas) de 20 mil, 30 mil 50 mil ou mais. Para mim, esse é um “profissional da fé” – no sentido mais pejorativo da palavra – , não alguém que escolheu viver seu chamado.

Sempre que saio com o Tehilim Celtic Rock para tocar ou dar workshops, é inevitável a pergunta: “E aí? Como é viver do ministério?”. O choque da pessoa normalmente vem quando respondo: “Eu não vivo do ministério. Sou músico profissional procurando freelance e um jornalista que está sem nenhum trabalho!”. E eu entendo perfeitamente que o choque vem por três motivos: Primeiro – pela sinceridade da resposta em não omitir uma verdade, “Preciso de trabalho”. Segundo – Por saber que embora eu tenha pedido uma oferta e vendido CDs naquela apresentação ou workshop, eu não cobrei cachê para fazer aquilo, o que leva a entender que eu não vivo daquilo. Terceiro – Ninguém espera estar aprendendo, ou ser ministrado, por alguém que não vive da obra ou está desempregado.

No fundo esses três pontos que apresentei são os paradigmas que temos em nosso meio. Mas quero me prender ao lado de quem é o personagem principal dessa situação, que é o ministro (ou o músico, palestrante, artista).

Existem dois tipos desse personagem: 1) Aquele que sonha em viver da obra mas espera o tempo de Deus chegar (mesmo que esse tempo nunca chegue), e continua trabalhando em seu trabalho secular conciliando sua agenda com sua profissão. 2) E aquele que vive a “Síndrome de Alice no País das Maravilhas”. Ele também sonha em viver do ministério, mas ele vive o sonho e não a realidade. Justamente por isso, ele atropela o tempo das coisas.

Esse segundo exemplo do personagem vive uma profunda interpretação da sua vida ministerial e do seu chamado. Muitas vezes, o cara está desempregado, dependendo da ajuda de terceiros, mas ele insiste em “viver do ministério” sendo que esse tempo ainda não chegou na vida dele, e sabe lá Deus se um dia chegará.

Mas o interessante é observar o que leva uma pessoa ser assim. E uma das coisas que tenho notado é a vergonha. Lembra do terceiro item dos paradigmas que eu comentei um pouco acima? Pois é, como muitos ministros também carregam o paradigma de não aprender, ou ser ministrado, por alguém que está desempregado, então a pessoa se torna um ator de sua própria vida. Afinal, essa pessoa tem chamado para ser alguém importante no Reino, não pode ser um desempregado.

Eu vim de uma denominação onde o pastor pregava no púlpito que Deus só chamava para a obra aqueles que estavam trabalhando. Ou seja, quem estava desempregado tinha mais é que se ferrar! Nem chamado ministerial poderia ter! Depois de vários anos, percebi que isso é um pouco impregnado nas pessoas que tem um chamado, a vergonha de dizer que está desempregado. E para não dizer que está em uma situação difícil, surge o personagem do super-ministro: “Tudo bem, amigo? Tá trabalhando? Te vejo sempre aqui na igreja?” – então vem a resposta do personagem, envergonhado – “Tudo bem! É que Deus me mandou uma prova difícil e agora entendi que tenho que viver do minstério!”.

Seja honesto. Vai dizer que você nunca viu essa cena (ou você mesmo já participou)?

Entende quando eu digo que a pessoa está sendo o ator de sua própria vida? É simples de entender. Muitas vezes, a pessoa deu um workshop muito legal, ou fez uma pregação maravilhosa. Mas quando desce do palanque se esquece completamente de que a vida normal continua. De que ainda precisa arrumar um emprego, precisa levar sustento para casa e não ficar dependendo da ajuda dos outros.

É importante sabermos, principalmente para os que sentem que tem um chamado de Deus, que quando o Senhor nos manda viver da obra dEle, Ele é claro conosco, nosso coração não fica em dúvida. Se o Senhor te escolheu para viver da obra, certamente Ele arrumará o sustento (seja por uma igreja que te ajude, por mantenedores oficiais, ou até mesmo um emprego dentro do ministério).

Vejo muita gente com chamado verdadeiro morrer na praia por querer antecipar o chamado de Deus para sua vida. Na maioria das vezes, o desemprego não significa que Deus tirou tudo de você para que você vá viver da obra. Isso pode ser simplesmente um momento difícil pelo ual você está passando.

Também não precisamos nos envergonhar de sermos usados por Deus em uma determina situação e depois termos que admitir que somos ministros/palestrantes/artistas desempregados. O Senhor chama quem Ele quer e usa como Ele quer, onde Ele quer.

Vejo muita gente querendo forçar a barra de Deus, e vivendo uma mentira. Muitas vezes a mentira é tão grande que o cara se torna um preletor internacional, em suas próprias histórias, mas sente uma vergonha gigantesca em ter que admitir que embora tenha um chamado, está procurando emprego.

Sinto muito pelos artistas, pois vivemos num país onde muitos excelente músicos profissionais não tem trabalho. Onde muitos atores não tem um palco para interpretar e onde nem todos os dançarinos tem uma boa companhia de dança para participar. Em nossa realidade tupiniquim, ter a arte como profissão não é algo muito fácil.

Olhando dentro do universo cristão, a maioria das trupes teatrais não passam de pequenos grupos de dentro das igrejas (com raríssimas exceções dos que conseguem se profissionalizar). As companhias de dança podem ter ganhado uma popularidade maior, mas os que conseguem viver somente disso, são poucos. A música no meio cristão ao mesmo tempo que é porta mais “larga”, também é a mais complicada. Pois existem as “panelas”, os que acham que tudo tem que ser feito na fé e os que preferem contratar músicos seculares do que cristãos para gravar.

Mas prefiro crer que quando Deus tem que chamar alguém, principalmente para viver da obra, Ele vai arrumar a melhor forma para isso. Como pessoas que tem um chamado, não podemos aceitar viver essa “Síndrome de Alice no País das Maravilha”, que pode ser melhor traduzido como mentira. Não existe motivo para se sentir diminuído ou menosprezado por não viver da obra, a vergonha deve ser de viver uma mentira.

E vamos pensar no outro lado. Deus usa e vai usar muita gente que nunca será chamada para viver da obra, mas continuará com seus empregos seculares e dando frutos no Reino de Deus. Basta sabermos para o quê Ele nos chamou.

Eu não gosto muito da expressão “estra no centro da vontade de Deus”, justamente porque não acho que a vontade dEle tenha uma posição. Eu acredito que a vontade de Deus é um caminho, e andar nesse caminho é o que vai nos ajudar entender para onde estamos indo e o que devemos fazer. Apenas acho que o importante é não cairmos num sono profundo até o ponto de morrermos em nosso próprio sonho, e nunca acordarmos para a realidade.

Sobre mim, posso dizer o seguinte, tenho muita vontade de viver para a obra de Deus exclusivamente. Mas confesso que não sei se o Senhor me chamou para tal exclusividade. Por eu estar passando um momento profissional difícil, algumas pessoas já chegaram a me dizer que nunca mais vou voltar a trabalhar secularmente, pois Deus me chamou para a obra. Quer saber se eu acredito nisso? Não mesmo. Quando o Senhor quiser isso de mim Ele vai falar diretamente comigo. E tem um outro detalhe, não dá para brincar de “viver da obra” quando você tem família para sustentar.

Espero que essa minha auto-reflexão ajude a outros. E para encerrar (e para evitar determinadas críticas), se eu estivesse usando esse post para procurar emprego, eu não escreveria um texto, colocaria meu currículo aqui!

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2 comentários

  1. Muito boa reflexão e honestidade, realmente temos vivido muito disso… que todos possam sair do país das maravilhas e viver no país da vontade do PAI.
    Abrs meu irmão!

  2. Olá meu amigo Rick.

    Com o passar dos anos, aprendemos a ver mudanças nas coisas com maior naturalidade. A diferença é, expressar essa mudança, seja ela, boa ou não.
    É bom ler o seu comentário e acreditar que pessoas ainda possa deixar de ser ” cristãos ” para se tornarem verdadeiramente ” CRISTÃOS “.
    Um grande abraço.
    Tikão.

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